Tuesday, July 23, 2002

ah. dolores esta pronta.

aos quatro ventos

tenho sido muito gratificada com os encontros fortuitos - a dizer os desencontros com os meus planos iniciais. hoje mesmo tive um dia digno de conto (e conta). comecei um dia acompanhando minha mae ao neurologista. senhor respeitado que tem mais diplomas que anos e ja tem muitos anos e que tem a cara de um dos caras daquele jogo cara-a-cara. almocei (acelga, tomate, agriao, galinha assada). fui ao instituto de biologia checar um software e dei carona a meu pai para uma consulta aos buzios. depois fui me encontrar com o cabeludo no mais do que habitual saguao do albergue das laranjeiras e ali conversamos por quase quatro horas, depois das quais, abandonando de vez (na verdade desviando-me sem querer d)os meus planos passei na casa de renata, grande amada amiga que se gosta de perder como eu, e fomos aa pizzaria outrora conhecida como pizzaria de mi e agora de carlos e edu. qual nao foi nossa surpresa, carlos estava tocando violao acompanhado por uma japa muito simpatica. tocaram por horas enquanto eu e re afogamos nossos bigodes numa languida lasanha aos quatro queijos. concerto feito, re subiu ao palco e cantou algumas coisas. esta sendo interessante essa minha safra de despedidas... afinal daqui a duas semanas pego um aerovolante para alem de onde judas comprou as botas que perdeu. engracado foi quando ela cantou bye bye brasil e chegou no "tem um japones 'tras de mim"... risos compulsivos. conversando com a nipo descobrimos que ela mora nos esteites desde os quinze anos e toca violino na orquestra sinfonica da filadelfia e nos ultimos dias tocou muito sentadinha na areia do porto da barra. lembrei da minha amiga naoyo, outra japa figura que esta casada em algum lugar da holanda, e que era especime raro por ser japa e ter bunda grande ao mesmo tempo. essa de hoje, meg, era falante falante falante que devia se chamar emilia.

enfim...

e eu aqui nessa noite de lua cheia, meu deus, pensando no que vou ter que comprar no mercado assim que chegar a kristiania... e que vou precisar de ajuda nessa ida ao quebra-galho... afinal, eu nao sei a diferenca entre salsa e cebolinha (serio) nem em portugues e a unica coisa que me salva na vindoura selva inteligivel eh que xampu eh "shampoo" e milho eh "mais"...

o sol nunca mais vai se por, meu amor....

eu mal posso esperar para ser engolida.

Monday, July 22, 2002

bem... num dia como o dia que foi hoje nao seria dificil me achar no albergue das laranjeiras tomando um cafe, uma agua sem gas e escrevendo baldes para espantar o frio. na verdade fui arrasta ao pelourinho primeiro para me despedir da edith, uma amiga americana que conheci pelo site do virtual tourist (link a lado) e que passou uns dias em salvador. legal, a menina. depois que ela se foi, e eu ja tinha tomado pelo menos dois cafes com ela, voltei ao querido albergue para conversar com guiomar e encher a cara de cafeina, esperando talvez que minha amiga mi ligasse e propusesse um cineminha...

nada disso aconteceu, eu pedi o kit habitual (cafegrandeaguasemgascaneta) e procurei um lugar para me sentar.

apenas uma cadeira vaga numa mesa ja ocupada... deixo voces com o que escrevi:

"

MAIS UMA VEZ UM CAFÉ E UMA ÁGUA. PEÇO AO CABELUDO QUE LÊ PARA ME SENTAR À MESA DELE. A PAREDE COBERTA DE CHITA, O CHÃO IMITANDO UMA CALÇADA, O TEMPO INDECISO DE UM CHOVE-NÃO-CHOVE FRUSTRANTE. COMI O PALITO QUE A MOÇA ME DEU PARA UNIR O ADOÇANTE AO SUCO NEGRO E TENHO AGORA QUE GIRAR A XÍCARA.

A DENTISTA ME DISSE QUE MEUS DENTES MOSTRAM MARCAS DE DESGASTE. HUMM... MEUS OLHOS SÃO JOVENS E BRILHANTES E MEUS DENTES VEZ EM QUANDO PRECISAM DE REBOCO. CONTRAVENTORES, SÃO OS MEUS DENTES AS JANELAS DA MINHA ALMA...

A DEDICAÇÃO DO CARA CABELUDO A SEU LIVRO RENOVA A MINHA FÉ NO MUNDO, AFINAL. OU TALVEZ ELE NÃO ENTENDA A LÍNGUA DO LIVRO E SÓ ESCORREGUE SEUS OLHOS COMO OS LÁPIS DE UMA CRIANÇA ALFABETIZANDA SOBRE OS PONTILHADOS DAS LETRAS. JÁ SORRI QUATRO VEZES E ELE NÃO SORRIU DE VOLTA. DEVE SER BANGUELA, O DESGRAÇADO. O CABELO E A BARBA E OS ÓCULOS DEVEM ESTAR AÍ PARA COBRIR SUA DESGRACICE À MODA DE UM BAND-AID DE MICKEY SOBRE UMA CRECA CHEIA DE PUS.



VOU FICAR DE MAL COM ESSE CABELUDO. TALVEZ ELE ME ODEIE. ACHO QUE ELE ME ODEIA, TAMBÉM. É UMA PENA, EU QUERIA SABER QUE LIVRO ELE ESTÁ LENDO. SE FOR PAULO COELHO MINHA FÉ NO MUNDO VAI TER UMA ARRITMIA E MORRER NO CORREDOR DO HGE...

COM CERTEZA ELE ME ODEIA E UM DOS NOZINHOS DA SUA JOVEM FITINHA DO SENHOR DO BOMFIM COM CERTEZA FOI UM PEDIDO AO PADROEIRO PARA QUE EU SOFRA DE UNHA ENCRAVADA ATÉ OS FINS DOS MEUS DIAS.

OLHA SÓ, ELE COÇOU A CABEÇA. DEVE TER CASPA, ESSE NOJENTO... E O SOVACO! DEVE TER CASPA EM TODO LUGAR ENCABELADO. TÔ DIZENDO! ACABOU DE COÇAR A BARBA! EU MUDARIA DE MESA SE HOUVESSE ALGUMA VAGA, PORQUE --

AH, OLHA SÓ, ELE SORRIU PARA MIM, QUE GENTIL! SERÁ QUE ELE É ENGENHEIRO FLORESTAL E O LIVRO É SOBRE O SALVAMENTO DAS ARAUCÁRIAS? QUE BELA CAUSA, A DESTE SIMPÁTICO HOMEM CABELUDO! ELE DEVE TER TRABALHOS PUBLICADOS SOBRE O ASSUNTO NA REPÚBLICA TCHECA, DE ONDE ELE TALVEZ SEJA!

UAU... EU, AQUI, SENTADA NA MESA DE UMA "OTORIDADE"... ELE É SUPER SIMPLES, EU APRECIO ISSO NAS PESSOAS FAMOSAS COMO ELE. SERÁ QUE APERTO SUA MÃO E MINTO QUE JÁ LI UM DE SEUS LIVROS? E SE ELE PERGUNTAR O QUE EU ACHO DA QUASTÃO DOS SAIS MINERAIS NA CORRENTE DE SEIVA EU NÃO VOU SABER O QUE RESPONDER, VOU FICAR SEM GRAÇA... "

NESTE MOMENTO O CABELUDO PUXOU PAPO, TOMAMOS MAIS QUATRO CAFÉS, UM CGC (CRAVO, CANELA E GENGIBRE - COM CACHAÇA, ÓBVIO), FIZEMOS UM BREVE CITY TOUR CRÍTICO (ESCULHAMBEI AS ESTÁTUAS TODAS DA PRAÇA DA SÉ_E A PATÉTICA FORMA DA PREFEITURA DE SALVADOR E OS ANIMAIS QUE DESTRUIRAM O BELVEDERE DA LINA BO BARDI) E COMEMOS BEIJÚ NO ARA.

SALDO:
9 CAFÉS AO TODO
1 ENDEREÇO DE E-MAIL
1 CONVITE PARA IR A MADRID (SIM, ESPANHOL)
1 NOME DE LIVRO ("TIRANO BANDERAS", DE RAMÓN DEL VALLE-INCLÁN -- NADA A VER COM ARAUCÁRIAS)

alors, mais um domingo... e eu aqui às 3:27 da manhã sem saber por que estou sem sono...



Saturday, July 20, 2002



Lubisco vai casar! Quem diria!

Friday, July 19, 2002

Dolores, boneca!






ontem foi um dia complicado - junta tpm com os habituais problemas do dia-a-dia, o silencio sepulcral da embaixada da noruega em relacao ao meu visto... so sei que bateu uma rebordosa daquelas de chorar e ouvir gonzaguinha. e ninguem por perto, minha cabeca inventou de fazer ideia, fazer ideia, fazer ideia.... e a radio educadora tocando coisas (tortura!) como "retrato em branco e preto"... liguei para o amigo geograficamente mais proximo e ele estava a caminho do trabalho. liguei para o segundo e ele estava em casa e me recebeu com bracos abertos e tv a cabo.

choramos e vimos warner channel a tarde toda, e dividimos grilos e fossas... no fim das contas saimos os dois mais leves. de volta em casa, a aranha da imaginacao comecou a tecer um enxoval que nao pode e nao deve, e eu resolvi distrair a minha cabeca. cortei uma calca velha, um vestido velho, e assim esta nascendo Dolores.

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¡Como Dolores nasció de las mias!

Dolores, boneca
ate agora tem um bundao,
nenhum braco,
um largo tronco,
dois peitos apertados,
uma perna longa sem joelho,
uma cabeca estranha.

a outra perna de Dolores
esta ja recortada
num retalho maior da malha preta.

Dolores vai ter um vestido vermelho
de flores brancas
e talves esteja costurando uma boneca
(que se chamara Soledad).

Dolores eh cheia de algodao
que a preenche sem desalojar o vazio
e lhe da forma sem lhe dar posicao.

Vou por Dolores na janela
pra ela pensar besteira
enquanto eu esqueco as minhas
costurando a sua pele....




Wednesday, July 17, 2002

(atenção para plágio idiota)

garota eu vou pra norueeeegggaaa
viver a vida nas geleeeeiirraass
vou ser pinguim de geladeeeirraaaaaa
o meu destino eh congelaaaaarr

ieeeeeeeeeeeeeeeeee
O urso baba os meus cabelos
As lontras lambem minhas pernas
Bacalhaus pulam no meu corpo
Meu coração canta feliz

Finjo que sou capoeirista
Eu sambo na pista, monto uma banda
Na Noruega é diferente, irmão
Eh muito mais do que um sonho



E a vida passa lentamente
Com gelo nos ossos da gente
Tao de repente que nao sente
Os dedos por causa do frio

Vou almocando sanduiche
com creme de aliche, ou de presunto
fatia de queijo com pimentao
pagar dez paus na cerveja

Garota, eu vou pra Noruega
Chega de moda baixaria
Vou me vestir todos os dias
Como Helga, a mulher do Hagar



plano de carrinho de pipoca modelo simples - rodas, sustento, panela, aquário, divisória, elástico. possibilidade de gaveta para troco.

(certa vez no antigo cinema ART do politeama eu conversei com um pipoqueiro que me explicou a aerodinâmica dos carrinhos - por que a panela fica mais baixa, por que panela velha é melhor, a importância da escolha da manteiga... e me contou ainda quem tinha trazido a novidade da pipoca doce para salvador. claro que não me lembro com detalhes, mas era um senhor ainda vivo que tinha aprendido com o inventor da modalidade no rio e trouxe para a cidade a nova onda. vendia na frente de um grande colégio religioso... )

plan of popcorn kart simple model - wheels, support, pan, bowl, dividing screen, elastic. possibility of drawer for the change.

(once in front of the old ART cinema theatre at Politeama I spoke to a popcorn salesman who explained to me the whole aerodynamics of the popcorn kart - why the pan has to be placed on a lower level, why old pans make the best popcorn, the importance of the choosing the butter... and told me who had brought the invention of sweet popcorn to salvador. of course i don't recall the details, but the mister was still alive who had learnt form the inventor of the sweet popcorn fashion in rio and had brought the new groove to town. he used to sell in front of a big religious school... )

Sunday, July 14, 2002

Anatomia 1




este peito que vos dita

estas palavrinhas frouxas

eh um coral afundado

onde, ha seculos, montanhas.



baiacus, caramurus e linguados

e planctons, e lindas

baratinhas d'agua,

pinaunas fofas e

algas assustadoras

se inquilinam sobre

seus desajeitados cabelos

cujos fios alguns quebram

para ostentar aas orelhas.





(este peito que vos dita

nem ele mesmo acredita

nestas palavrinhas frouxas.)




marina martinelli - 150602

ir ao banco buscar o cartão
ligar para a embaixada
ligar para a reitoria
buscar o livro na reitoria
ligar para o meu tio
colocar as calcinhas na mala
comer um acarajé
de despedida

... E o que significa, então, ser poeta? Há tempos que eu percebi que ser poeta significa essencialmente ver, mas prestem atenção, ver numa forma tal que o que seja visto seja percebido pelo público daquela maneira que o poeta viu. Mas apenas o que foi vivido pode ser visto dessa forma e aceito dessa forma. E o segredo da nova literatura está justamente nessa questão das experiências que são vividas. Tudo o que eu escrevi nos últimos dez anos eu vivi, ainda que espiritualmente. Mas nenhum poeta vive coisa alguma isolado. O que ele vive, todos os seus iguais vivem. Senão, o que serviria de ponte entre as mentes producentes e as mentes receptoras?



E o que foi, então, que eu vivi e que me inspirou? O leque foi enorme. Em parte fui inspirado por algo que apenas raramente e em meus melhores momentos se incitou vividamente dentro de mim como grandioso e belo. Eu fui inspirado por aquilo que, por assim dizer, sobressaiu ao meu eu de cada dia, e fui inspirado por isso porque eu quis confrontá-lo e torná-lo parte de mim.



Mas eu também fui inspirado pelo oposto, pelo que aparece na instrospecção como os refugos e sedimentos da natureza de uma pessoa. Escrever para mim foi, neste caso, como um banho do qual saí me sentindo mais limpo, saudável e livre. Sim, Senhores, ninguém pode retratar nada poeticamente de que não tenha até certo ponto e pelo menos algumas vezes servido de modelo. E quem dentre nós é o homem que nunca sentiu por vezes e reconheceu dentro de si uma contradição entre a palavra e o ato, entre a vontade e o dever, entre a vida e a teoria em geral? Ou quem dentre nós não foi algumas vezes egoisticamente o bastante a seus próprios olhos, e meio consciente, meio de boa fé, quis extenuar sua conduta para consigo e para os outros?

Eu acredito que em ter dito isso tudo a vocês, os estudantes, minhas observações encontraram o público mais apropriado. Vocês as entenderão como elas devem ser entendidas. Porque um estudante tem essencialmente a mesma missão de um poeta: deixar claro para si e por conseguinte para os outros as perguntas temporais e eternas que estão ativas no tempo e na comunidade a qual ele pertence.

Sobre isso eu ouso dizer sobre mim que me esforcei para ser um bom aluno durante minha estadia no exterior. Um poeta tem por natureza um olhar que antecipa e extravaza. Nunca havia visto minha terra nem a verdadeira vida da minha terra tão completamente, tão claramente e de tão perto antes de estar ausente e longe dela.

E agora, meus queridos conterrâneos, para concluir, algumas palavras que também estão relacionadas a algo que eu vivi: Quando o Imperador Julian chega ao fim de sua carreira e tudo ao seu redor entra em colapso, não há nada que o desanime mais do que o pensamento de que tudo o que ele ganhou foi isso - ser lembrado por cabeças frias e claras com uma admiração respeitosa, enquanto seus oponentes seguem enriquecidos com o amor de corações aquecidos e vivos. Este pensamento foi o resultado do muito que vivi; ele teve sua origem numa pergunta que me fiz algumas vezes, lá embaixo, em minha solidão. Agora os jovens da Noruega vieram a mim aqui, nesta noite, e me deram a minha resposta em letra e música, me deram a minha resposta de forma mais clara e quente como jamais esperei ouvir. Eu levarei essa resposta comigo como sendo a recompensa mais rica da minha visita aos meus patrícios, eu a levarei para casa. E eu espero e confio que o que experienciei esta noite será uma dessas experiências que nós "vivemos", que de alguma forma se refletirá num trabalho meu. E se isto acontecer, se eu mandar um livro assim para casa, então pedirei que os estudantes o recebam como um aperto de mão e um agradecimento por este encontro. Eu pedirei que vocês o recebam como aqueles que tiveram uma participação na sua feitura.



Henrik Ibsen

(Palestra aos Estudantes Noruegueses, 10 de Setembro de 1874, in "Palestras e novas cartas", 1910)

Tuesday, July 09, 2002

O senhor... Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam.

Riobaldo, in Grande Sertão : Veredas, de Guimarães Rosa